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15/04/2024

Novo ciclo do projeto com os Mbyá Guarani no Rio Grande do Sul

Projeto Ar, Água e Terra, realizado pela organização sem fins lucrativos IECAM visa a segurança alimentar, a cobertura vegetal e a gestão sustentável dos territórios indígenas nos biomas Pampa e Mata Atlântica

Abrangendo uma área de mais de três mil hectares nos biomas Pampa e Mata Atlântica, em dez aldeias Guarani situadas em dez municípios do Rio Grande do Sul (RS), o Instituto de Estudos Culturais e Ambientais (IECAM) retomou, em janeiro de 2024, o Projeto Ar, Água e Terra, que conta com o patrocínio da Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental.

O Instituto realiza atividades socioambientais com a etnia Guarani desde a década de 90 e desde 2012 desenvolve o Projeto, com uma metodologia de construção participativa entre equipes indígenas e não indígenas, atuação interdisciplinar e intercultural e troca de saberes, práticas e técnicas, com o protagonismo dos Guarani que apresentam suas demandas e propõem soluções.

O trabalho já alcança resultados de reconversão produtiva e recuperação ambiental nos biomas, além da redução das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) geradas nas ações do projeto. Entre os principais resultados até o momento, destacam-se cinco mapas de cobertura da terra e etnomapas das Terras Indígenas (TI); cinco hectares de áreas reconvertidas; dez hectares de áreas recuperadas/restauradas; três mil hectares de áreas conservadas nas Terras Indígenas; 30 mil mudas plantadas; e mais de 150 atividades de educação etnoambiental. As ações são cuidadosamente planejadas considerando as necessidades culturais e características ambientais de cada aldeia, focando na segurança alimentar, cobertura vegetal e na gestão sustentável dos territórios indígenas.

 

A nação Guarani faz parte do grupo étnico Tupi e se divide nos subgrupos Xiripa, Mbya e Kaiowa. Cerca de 220 mil índios guarani permanecem vivendo ainda hoje na Bolívia, Paraguai, Argentina e Brasil - onde a população Guarani alcança cerca de 50 mil índios. A população que se autodeclara indígena no Brasil segundo o IBGE (2022) alcança aproximadamente 1,69 milhões de indígenas, população que cresce, considerando ser 88,8% maior que a registrada em 2010; 36.096 indígenas vivem no Rio Grande do Sul. Atualmente, os Guarani constituem a maioria da população indígena do litoral sul e sudeste do País, vivendo em cerca de cem aldeias situadas junto a Mata Atlântica, no Mato Grosso, Amazônia e entre os estados do Rio Grande do Sul e Espírito Santo.

No RS, a situação fundiária é de 48 TI, sendo 21 da etnia Guarani (FUNAI, 2019). O Projeto Ar, Água e Terra envolve dez aldeias localizadas nas regiões metropolitana de Porto Alegre, central e litoral norte, médio e sul do estado.

O histórico dessa etnia revela modos de vida tradicionalmente integrados aos ecossistemas florestais, através de um manejo sustentável que permite a coleta de alimentos, medicamentos, espécies para uso em cerimônias e para a construção das casas, confecção de utensílios, artesanato, instrumentos e adornos, respeitando a capacidade de suporte dos ambientes e a troca de saberes e experiências com parceiros dispostos a recuperar e conservar a biodiversidade.

Mais de 300 indígenas estão envolvidos diretamente no trabalho; mulheres, homens e crianças Guarani participam do Projeto seguindo a organização da comunidade, que realiza as atividades conforme os dons e aptidões de cada indivíduo. Além do resgate e revitalização de saberes e práticas tradicionais Guarani, o trabalho contempla o viveirismo, a recuperação de áreas degradadas, a melhoria da fertilidade do solo, a produção de alimentos em roças tradicionais, e o uso de técnicas agroecológicas como a adubação verde[1] e os quintais agroflorestais, além do intercâmbio de sementes e mudas de uso tradicional indígena, para contribuir para a segurança alimentar e a autonomia das aldeias.

Os resultados já obtidos contribuem para a preservação da biodiversidade no território gaúcho e na luta mundial urgente contra o aquecimento global.

RESULTADOS ALCANÇADOS ATÉ O INÍCIO DA 4ª FASE DO PROJETO AR, ÁGUA E TERRA

-  Conservação de mais de três mil hectares nos biomas Pampa e Mata Atlântica;

- Cultivo de mais de 20 mil mudas nos viveiros/estufas;

- Plantio de mais 30 mil mudas de 100 espécies nativas da região sul do Brasil;

- Reconversão produtiva de cinco hectares;

- Recuperação de dez hectares de áreas degradadas;

- Redução da emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE) de 7.665,8 tCO2-e com/nas TI;

- Mais de 150 atividades, como oficinas de educação etnoambiental, reuniões, encontros etc.;

- Cadastro de participantes indígenas com a sistematização de dados;

- Etnomapeamento e mapeamento dos territórios indígenas;

- Construção de dois viveiros/estufas e um quiosque para a exposição e venda de artesanato Guarani.

PROPOSTAS PARA A NOVA FASE DO PROJETO AR, ÁGUA E TERRA

O trabalho do IECAM contemplará atividades como rodas de conversa, reuniões, encontros, trilhas e oficinas envolvendo temáticas como revitalização de saberes e práticas ecológicas tradicionais, Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), compostagem e reciclagem de resíduos, direitos indígenas e das mulheres, agroecologia, gestão sustentável dos territórios, soluções baseadas na natureza (SbN) e etnodesenvolvimento. O projeto possibilitará benfeitorias no Yvirendá/ Poarendá (casa das plantas) viveiro/estufa das aldeias de Porto Alegre e Palmares do Sul e em dois Ajaka Ro (casa do artesanato/quiosque) das aldeias de Osório e Torres, no norte do RS. De forma pioneira, inspirados em SbN e ecoeficiência, serão avaliados e realizados com as comunidades a instalação de um gerador de energia solar e de energia eólica em duas aldeias participantes, para contribuir, de forma pioneira, com a geração de energia com fontes renováveis em duas aldeias Guarani do RS.

Aldeias e regiões do RS que participam da 4ª fase do Projeto Ar, Água e Terra

MUNICÍPIO (S)

COMUNIDADES/ALDEIAS DIRETAMENTE ABRANGIDAS

Caraá

Teko’a Ka’aguy Pau (Aldeia Vale das Matas)

 

Teko’a Nhuu Porã (Aldeia Campo Bonito/Molhado)

 

Maquiné

Riozinho

Osório

Teko’a Kuaray Resé (Aldeia Sol Nascente)

Palmares do Sul

Teko’a Yriapu (Aldeia Som do Mar)

Porto Alegre

Teko’a Anhetenguá (Aldeia da Verdade)

Rio Grande

Teko’a Pará Rokê (Aldeia Porta do Mar)

Santa Maria

Teko’a Guaviraty Porã (Aldeia da Guabiroba Boa)

Torres

Teko’a Nhuu Porã (Aldeia Campo Bonito)

Viamão

Teko’a Nhuundy (Aldeia do Campo Aberto/ Capinzal)

 

Teko’a Pindo Miri (Aldeia Coqueirinho/dos Coqueiros)


 

SOBRE O PROJETO AR, ÁGUA E TERRA - Em 2010, através de seleção pública, o Projeto foi aprovado e iniciou, em 2012, as atividades. O projeto é patrocinado pela Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental. Com a abordagem etnoambiental como eixo central, o projeto contempla uma série de necessidades do povo Guarani, como a segurança alimentar e a restauração florestal com espécies nativas de uso tradicional indígena. Para a realização das atividades, utiliza uma metodologia de construção participativa, proporcionando a troca intercultural de saberes, práticas, técnicas e ideias, sendo os indígenas protagonistas e coexecutores, apresentando suas demandas e propondo soluções, atividades e métodos. Em janeiro de 2024 foram retomadas as atividades, inaugurando a 4ª fase do Projeto em dez aldeias Guarani, localizadas em dez municípios do RS.

 

 

[1] Técnica de melhoramento do solo através da introdução de plantas com grande potencial de produção de biomassa vegetal, que cobrem o solo rapidamente, proporcionando um acúmulo de matéria orgânica, com enriquecimento de nutrientes e aumento da fertilidade. Além disso, oferecem sombra e ajudam na conservação da umidade, descompactação e proteção contra a erosão.